O passado é uma roupa que não nos serve mais
Por Priscila Mayer
Faz alguns bons meses que eu tenho feito uma espécie de rotinazinha bem estranha logo que acordo, enquanto ainda estou na cama: pego o celular, olho as lembranças do Facebook e do Google fotos... Todo dia.
No começo, eu achava gostoso olhar as fotos de quando meu filho ainda era pequeno, relembrar nossos momentos, compartilhar algumas delas com os envolvidos na imagem... Aos poucos fui também percebendo que eu já tive algumas ideias bastante equivocadas, fui ficando feliz por saber que hoje não mais penso assim e entendendo que algumas outras ideias ainda não consegui mudar, ainda martelam aqui, ainda machucam, ainda me confundem... Mas chegou um belo dia em que eu me dei conta de que, além de rever as coisas, eu estava apagando posts antigos. Fazendo isso como quem quer apagar memórias. E eu me dizia: ano que vem, quando eu abrir essa página de lembranças, não vou mais ver essa foto e me lembrar desse dia em que forcei felicidade. Um dia em que eu me esforçava pra que todo mundo pensasse que eu estava bem, mas eu, na verdade, estava, por exemplo, indo o tempo todo ao banheiro lavar o rosto pra não chorar pra fora o que me moía por dentro. Eu confesso! Fiz isso muitas vezes. E, às vezes, me pego pensando se não é isso que eu continuo fazendo quando eu me desmarco de posts de outras pessoas, quando excluo fotos ou apago textos que eu mesma escrevi.
Ninguém mais, além de mim, vai ler aquilo que está lá. Ninguém vai rolar o feed até 2, 4, 7, 8, 11, 12 anos atrás pra ver o que eu escrevia ou quem eu era. Era? Penso que, se algumas coisas ainda me incomodam hoje, é porque eu ainda sou ou, ao menos tenho, essas coisas em algum ponto dentro de mim. Talvez num lugar chamado dores que não quero mais sentir, mas que ainda me doem muito quando lembro. É difícil olhar meu sorrisão, que nos comentários chamam de lindo, e conseguir admitir que ele realmente é lindo quando, aqui dentro, aqui em mim, eu sei dos bastidores dele...
As marcas deixadas, às vezes são tão grandes e tão profundas que as cicatrizes trazem a impressão de que nunca deixarão de existir. E talvez não devessem mesmo deixar de existir pra que eu me lembre que ali, naquele(s) momento(s) estava sendo forjada a mulher que sou hoje e que, bem aos poucos, de maneira mais lenta do que eu gostaria, aprende a dizer não, aprende a colocar limites e aprende a ir embora de onde não está cabendo. Ainda assim, penso se um dia, de fato, sairei de alguma situação com toda a convicção de que estou fazendo certo comigo mesma, sem me questionar se estou sendo precipitada ou impaciente. Apenas me amando.
Eu quero e me forço a acreditar que o tempo é senhor de todas as coisas e me mostra quem está e quem não está comigo; que eu posso ser eu mesma, falar o que eu quero e o que eu sinto no momento e que, aí, ficarão os que têm que ficar, os que me respeitam. Eu só não entendo porque existe uma parte em mim que se entristece pelos que se foram, mesmo tendo sido tão mal cuidada por eles.
Talvez eu devesse optar por não mais olhar as lembranças do Facebook ou as recordações do Google fotos, mas sei que de nada adiantaria. As situações que não curei voltam e
voltariam assim mesmo. Voltam 2 ou 10 anos depois daquele momento que você já havia entendido como um basta, mas que, de alguma forma, você ainda deixou uma brechinha e agora vai ter que chorar de novo pra poder pontuar mais uma vez e aumentar, determinar o limite: isso eu não quero; isso me dói; eu não vou tratar desse assunto agora; não há mais nada entre nós; eu não aceito que você fale comigo desse jeito; eu não aceito que você me trate assim; eu não aceito que você me machuque de novo; eu te pus esse limite lá atrás e você não compreendeu...
Para algumas pessoas e situações, a gente realmente precisa desenhar ou bater a porta na cara ou, de fato, abandonar e entender que também tem o direito de fazer exatamente aquilo que você não gostou quando fizeram contigo. E, depois, assumir pra si: eu não sou perfeita. Eu sou falha. Eu sou errante. Eu também sou humana e tô aqui nessa vida pra aprender e pra viver. Eu não quero mais apanhar e, pra que isso fique claro, em algum momento eu vou precisar bater, mesmo que eu não suporte violência.
Durante essa semana, algumas dores antigas me visitaram e eu me vi brigando brigas de anos atrás. Tendo que defender espaços e direitos que eu acreditava já ter defendido o suficiente e eu não podia aceitar o que estava acontecendo. Eu observei e pude pontuar todos os pontos de chantagem e manipulação que eu não percebia ou que eu duvidava se realmente estavam acontecendo na época. Eu me chateei, eu chorei de ódio, mas ao final eu agradeci por agora estar do lado de fora disso a ponto de conseguir identificar onde foi que eu deixei a brecha. Eu sou errante, mas não sou burra pra errar o mesmo erro da mesma maneira.
Durante essa semana, algumas emoções novas me visitaram e eu me vi vivendo sonhos de anos atrás. Tendo que cuidar pra não correr o risco de não aproveitá-los porque ainda tenho em mim as cicatrizes das experiências velhas. Lamentei muito não conseguir, de cara, só aproveitar a beleza de perceber que esses sonhos estão sendo realizados, que eu estou colhendo um plantio que venho fazendo há tempos. Lamentei não estar de braços abertos pro cuidado e carinho que estou recebendo, mas entendi que o medo se justifica na antiga dor e que, se o sonho decidir ficar pra que eu o continue vivendo, é sinal de que ele respeita a minha história, respeita quem eu hoje sou e admira a minha ousadia de ter coragem pra ser feliz.
Para além disso, tem algo que eu considero demasiado importante: eu não me arrependo do que vivi. Na verdade, eu agradeço. Agradeço porque reconheço que tudo e todos os que passaram por mim me trouxeram até aqui. Não romantizo minhas dores e acredito mesmo que não precisava ser assim, até porque considero que gente é feita pra brilhar, não pra ser maltratada... Mas não posso e não vou negar que essa foi/é a minha história, a que escrevi com os papéis e as canetas que eu tinha ao meu alcance... Uma história às vezes escrita pelas minhas mãos, às vezes escritas por mãos que pegavam em cima da minha pra escrever ou até por mãos que tiravam a caneta de minha mão e escreviam por mim.
Hoje eu creio, e trabalho duro, pra que um dia eu também possa não estar nem aí pro passado, pra que ele esteja pago, varrido, esquecido. Afinal, eu já estou escolhendo viver a minha vida, as minhas alegrias, a partir de hoje, com quem hoje escolheu viver as suas alegrias comigo e desejo, com toda a minha força que a minha vontade encontre a minha coragem.


Comentários